Opening the book…

Produced by Gonçalo Silva. (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive.)

POESIAS
EROTICAS, BURLESCAS, E SATYRICAS

DE

M.M. DE BARBOSA DU BOCAGE.

Não comprehendidas na edição

QUE DAS OBRAS D'ESTE POETA SE PUBLICOU EM LISBOA, NO ANNO DE MDCCCLIII.

BRUXELLAS

MDCCCLX.

ADVERTENCIA PRELIMINAR.

Constou que muitas pessoas, que subscreveram para a recentissima edição das Poesias de Bocage, publicada em Lisboa, e concluida já no anno corrente, desejosas de possuir tudo o que saiu da penna de tão peregrino engenho, como que se lastimavam de não poderem juntar áquella collecção para a tornar completa, as obras do mesmo autor, que por tratarem de assumptos anti-religiosos, ou pouco conformes á decencia e moralidade dos publicos costumes, foram (ao que parece) com acertado fundamento omittidas na referida edição.

Entretanto é facto incontestavel que parte d'essas obras teem já sido impressas em diversos tempos, e que outras correm desde muitos annos pelas mãos dos curiosos em copias mais ou menos viciadas e incorrectas, como é de uso em papeis conservados manuscriptos, mórmente nos de tal natureza. A esta consideração veiu naturalmente prender-se outra, de certo bem attendivel no juizo do julgador imparcial: e é que do principio ao meado do seculo XIX medea longa distancia no perigo de similhantes publicações.

Nesta conjunctura alguem se persuadiu de que prestaria mui agradavel serviço aos que ambicionam inteirar suas collecções offerecendo-lhes estampadas em egual formato, e com a mesma disposição typographica essas composições, de cuja falta tanto lhes pezava; as quaes são, pelo assim dizer, outros tantos documentos indispensaveis para se avaliar cabalmente o merito do poeta; — conhecer até que ponto chegaram suas aberrações; — e para completar o desenho das diversas feições moraes do seu retrato; attendendo principalmente a que, conforme a reflexão já feita por um juiz competente, se as poesias licenciosas de Horacio são os seus unicos versos sem espirito, pelo contrario as de Bocage bastariam de per si a dar-lhe nome, e credito, se estes podessem provir de tal genero, ou se a sua gloria não estivera cimentada em mais firmes e seguros alicerces.

Eis ahi pois os motivos da publicação do presente volume.

Sirvam estas razões de salvo-conducto com que grangeêmos obter venia perante os animos sensatos e despreoccupados: quanto áquelles para quem (na phrase de um nosso amabilissimo contemporaneo) é mais alto escandalo escrever um beijo do que tomar cento, — esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão facil quanto infallivel: — Não o comprem, nem o lêam, e ficaremos em boa paz.

RIBEIRADA:

POEMA EM UM SÓ CANTO

ARGUMENTO.

_Quando o preto Ribeiro entregue ao somno
Jazia, lhe apparece o deus Priapo;
E com uma das mãos, por ser fanchono,
Lhe agarra na cabeça do marsapo:
Offerece-lhe depois um bello cono,
Cono sem cavallete, gordo, e guapo:
Casa o preto, e a mulher, por fim de contas,
Lhe põe na testa retorcidas pontas._

CANTO UNICO.

I

Acções famosas do fodaz Ribeiro,
Preto na cara, enorme no mangalho,
Eu pretendo cantar em tom grosseiro,
Se a Musa me ajudar neste trabalho:
Pasme absorto escutando o mundo inteiro
A porca descripção do horrendo malho,
Que entre as pernas alverga o negro bruto
No lascivo appetite dissoluto.

II

Oh Musa gallicada, e fedorenta!
Tu, que ás fodas d'Apollo estás sujeita,
Anima a minha voz, pois hoje intenta
Cantar esse mangaz, que a tudo arreita:
D'esse vaso carnal, que o membro aquenta,
Onde tanta langonha se aproveita,
Um chorrilho me dá, oh Musa obscena,
Que eu com rijo tezão pégo na pena.

III

Em Troia, de Setubal bairro inculto,
Mora o preto castiço, de quem falo;
Cujo nervo é de sorte, e tem tal vulto,
Que excede o longo espeto de um cavallo:
Sem querer nos calções estar occulto,
Quando se enteza o tumido badalo,
Ora arranca os botões com furia rija,
Ora arromba as paredes, quando mija.

IV

Adorna hirsuto rispido pentelho
Os ardentes colhões do bom Ribeiro,
Que são duas maçãs de escaravelho,
Não digo na grandeza, mas no cheiro:
Ali piolhos ladros tão vermelho
Fazem com dente agudo o pau leiteiro,
Que o cata muita vez; mas ao tocar-lhe
Logo o membro nas mãos entra a pular-lhe.

V

Os maiores marsapos do universo
Á vista d'este para traz ficaram;
E do novo Martinho em prosa, e verso
Mil poetas a porra decantaram:
Quando ainda o cachorro era de berço
Umas moças por graça lhe pegaram
Na pica já taluda, e de repente
Pelas mãos lhes correu a grossa enchente.

VI

De Polyphemo o nervo dilatado,
Que intentou escaxar a Galathéa,
Pelo mundo não deu tão grande brado
Como a porra do preto negra, e fêa:
Da Cotovia o bando gallicado
Com respeito mil vezes o nomêa,
E ao suberbo estardalho do selvagem
As putas todas rendem vassallagem.

VII

O longo, e denso veo da noute escura
Das estrellas bordado já se via;
E em rota cama a horrenda creatura
Os tenebrosos membros estendia:
Do caralho a grandissima estatura
C'os lençóes encobrir-se não podia,
E a cabeça fodaz de fora pondo
Fazia sobre o chão medonho estrondo.

VIII

Os ladros, que fieis o acompanhavam,
A triste colhoada a cada instante
Com agudos ferrões lhe traspassavam,
Atormentando a besta fornicante:
Na durissima pelle se entranhavam,
Supposto que com garra penetrante
O negro dos colhões a muitos saca,
E o castigo lhes dá na fera unhaca.

IX

Tendo o cono patente no sentido
Na barriga o tezão lhe dava murros;
E de activa luxuria enfurecido
Espalhava o caxorro afflictos urros:
Co'a lembrança do vaso appetecido
O nariz encrespava, como os burros;
Até que, em vão berrando pelo cono,
De todo se entregou nas mãos do somno.

X

Já, roncando, os visinhos acordava
O lascivo animal, que representa
C'o motim pavoroso, que formava,
Trovão fero no ar, no mar tormenta:
Com alternados couces espancava
Da pobre cama a roupa fedorenta,
Que pulgas esfaimadas habitavam,
E de mil cagadelas matizavam.

XI

Eis de improviso em sonhos lhe apparece
Terrifica visão, que um braço estende,
E pela grossa carne, que lhes cresce
Debaixo da barriga ao negro prende:
Acorda, põe-lhe os olhos, e estremece
Com quem ao terror se acurva, e rende:
Com o medo, que tinha, a porra ingente
Se metteu nas encolhas de repente.

XII

Do tremendo phantasma a testa dura
Dous retorcidos cornos enfeitavam;
E, debaixo da pansa, a matta escura
Tres disformes caralhos occupavam:
O sujo aspecto, a fêa catadura
Os rasgados olhões illuminavam;
E na terrivel dextra o torpe espectro
Empunhava uma porra em vez de sceptro.

XIII

Ergue a voz, que as paredes abalava,
E co'a força do alento sibilante
Mata a pallida luz, que a um canto estava,
Em plumbeo castiçal agonisante:
«Oh tu, rei dos caralhos (exclamava)
Perde o medo, que mostras no semblante:
Que quem hoje te agarra no marsapo
É de Venus o filho, o deus Priapo.

XIV

«Vendo a fome cruel do parrameiro,
Que essas negras entranhas te devora,
De putas um covil deixei ligeiro,
Por fartar-te de fodas sem demora:
Consolarás o rigido madeiro
N'uma femea gentil, que perto mora;
Mas não lh'o mettas todo, pois receio
Que a possas escaxar de meio a meio.»

XV

Disse; e o negro da cama velozmente
Para beijar-lhe os pés se levantava;
Mas tropeça n'um banco, e de repente
No fetido bispote as ventas crava:
Não ficando da queda mui contente
Co'uma gota de mijo á pressa as lava;
E, acabada a limpeza, a voz grosseira
Ao numen dirigiu d'esta maneira:

XVI

«Soccorro de famintos fodedores,
Propicia divindade, que me escutas!
Tu consolas, tu enches de favores
O mestre da fodenga, o pae das putas:
Viste que, do tezão curtindo as dôres,
Travava c'o lençol immensas luctas;
E baixaste ligeiro, como Noto,
A dar piedoso amparo ao teu devoto.

XVII

«Em quanto houver tezões, e em quanto o cono
Fôr de arreitadas picas lenitivo,
Sempre heide recordar-me, alto patrono,
De que és de meus gostos o motivo:
Pois me dás gloria no elevado throno,
E já, como o veado fugitivo
Que o caçador persegue, eu corro, eu corro
A procurar as bordas, por quem morro.»

XVIII

Deteve aqui a voz o rijo accento,
Que dos trovões o estrepito parece,
E logo d'ante os olhos n'um momento
A nocturna visão desapparece:
Deixa Ribeiro o sordido aposento,
Que de antigos escarros se guarnece;
E nas tripas berrando-lhe o demonio
Corre logo a tratar do matrimonio.

XIX

O brando coração da femea alcança
Com finezas, caricias, e desvelos;
A qual sobre a vil cara emprega, e lança
(Tentação do demonio!) os olhos bellos:
O fodedor maldito não descança
Sem ver chegar o dia, em que os marmellos
Que tem juntos do cú, dêem cabeçadas
Entre as candidas verilhas delicadas.

XX

Chega o dia infeliz (triste badejo!
Miseria crica! desditoso rabo!)
E ornado o rosto de um purpureo pejo
Une-se a mão de um anjo á do diabo:
Ardendo o bruto em férvido desejo
Unta de louro azeite o longo nabo,
Para que possa entrar com mais brandura
A vermelha cerviz faminta, e dura.

XXI

Principia o banquete, que constava
De dois gatos, achados n'um monturo.
E de raspas de corno, de que usava
Em logar de pimenta o preto impuro:
Em sujo frasco ali se divisava
Turva agua-pé; fatias de pão duro
Pela mesa decrepita espalhadas
A fraca vida perdem ás dentadas.

XXII

Depois de ter o esposo o bucho farto,
Abrasado de amor na ardente chamma,
Foge com leves passos para o quarto,
Ao collo conduzindo a bella dama:
Pelas ceroulas o voraz lagarto
A genital enxundia já derrama;
Só por ver da consorte o gesto lindo
Inda antes de foder já se está vindo!

XXIII

Jazia o velho thalamo n'um canto
Onde de pulgas esquadrão persiste,
Para theatro ser do afflicto pranto
Que havia derramar a esposa triste:
Oh noute de terror, noute de espanto,
Que das fodas crueis o estrago viste,
Permitte que com metrica harmonia
Patente ponha tudo á luz do dia.

XXIV

Ergue-lhe a saia o renegado amante,
Estira-se a consorte agil, e prompta;
E elle a setta carnal no mesmo instante
Ao parrameiro misero lhe aponta:
Co'um só beijo do membro palpitante
Ficou subitamente a moça tonta,
E julgou (tanto em fogo ardia o nabo!)
Que encerrava entre as pernas o diabo.

XXV

Prosegue o desalmado; mas a esposa
Que não pode aturar-lhe a dura estaca,
Dando voltas ao cú muito chorosa
Com geito o membralhão das bordas sacca:
Elle irado lhe diz, com voz queixosa:
«Não és uma mulher como uma vacca?
Porque fazes traições, quando te empurro
O mastro? quando vês que gemo, e zurro?»

XXVI

Então, cheio de raiva, aperta o dente,
E na gostosa, feminil masmorra,
Alargando-lhe as pernas novamente,
Com estrondosos ais encaixa a porra:
Ella, que já no corpo o fogo sente
Do marsapo, lhe diz: «Queres que eu morra?
Tu não vês que me engasgo, e que estou rouca,
Porque o cruel tezão me chega á bocca?

XXVII

«Ah! deixa-me tomar um breve alento,
Primeiro que rendida e morta caia…»
Mas elle, que na foda é um jumento,
Não tem dó da mulher, que já desmaia:
Sentindo ser chegado o fim do intento,
Do ranhoso licor lhe innunda a saia;
Porque dentro do vaso não cabia
A torrente, que rapida corria.

XXVIII

De gosto o vil caxorro então se baba,
E vendo que a mulher calada fica,
«Consola-te (exclamou) que já se acaba
Esta fome voraz da minha pica.»
E com muita risada então se gaba
De lhe ter esfollado a roxa crica;
Mas ella grita, ardendo-lhe o sabugo:
«Ora que casasse eu com um verdugo!

XXIX

«Fóra, fóra caxorro, não te aturo
Que me feres as bordas do coninho!»
E com desembaraço um tezo, e duro
Bofetão lhe arrumou pelo focinho:
Tomou em tom de graça o monstro escuro
A affrontosa pancada, e com carinho
Disse para a mulher: «Brincas comigo?
Pois torno-te a foder, por teu castigo.»

XXX

Estas vozes ouvindo a desgraçada
De repente no chão cahir se deixa;
E, temendo a mortifera estocada,
Ora abre os tristes olhos, ora os fecha:
Com suspiros depois desatinada
Da contraria fortuna ali se queixa;
Até que elle lhe diz, com meigo modo:
«Levanta-te do chão, que não te fodo.»

XXXI

Alma nova cobrou, qual lebre afflicta,
Que das unhas dos cães se vê liberta;
E apalpando a conaça (oh que desdita!)
Mais que bôca de barra a encontra aberta;
Mas consola-se um pouco, e já medita
Em fugir da ruina, que é tão certa;
E em vingar-se do horrivel Brutamonte,
Ornando-lhe de cornos toda a fronte.

XXXII

Tem conseguido a barbara vingança
A traidora mulher, como queria;
E o negro com paciencia branda, e mansa,
Soffrendo os cornos vai de dia em dia:
Bem mostra no que faz não ser creança,
Que de nada o rigor lhe serviria;
Porque se uma mulher quizer perder-se,
Até feita em picado ha de foder-se.

XXXIII

Agora vós, fodões encarniçados,
Que julgais agradar ás moças bellas
Por terdes uns marsapos, que estirados
Vão pregar c'os focinhos nas canellas:
Conhecereis aqui desenganados
Que não são taes porrões do gosto d'ellas:
Que lhes não pode, em fim, causar recreio
Aquelle, que passar de palmo e meio.

A MANTEIGUI:

POEMA EM UM SÓ CANTO.

ARGUMENTO.

_Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinencia;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornigero esposo a paciencia:
Como á força de tanta caralhada
Perdendo o negro a rigida potencia,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica._

CANTO UNICO.

I

Canto a belleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil, como profano;
Corpo, que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martellos de Vulcano:
Corpo vil, que trabalha mais n'um dia
Do que Martinho trabalhou n'um anno;
E que atura as chumbadas, e pelouros
De cafres, brancos, maratás, e mouros.

II

Venus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva tambem que todas ellas;
Tu, que vinhas de Troya ás soledades
Dar a Anchises as mammas, e as canellas:
Que grammaste do pae das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez da crica a sêde,
Foste pilhada na vulcanea rêde:

III

Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jacques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lyra,
Para livrar-me do mortal quebranto:
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa
Sobre qual é mais bella, ou qual mais puta.

IV

No Cambayco Damão, que escangalhado
Lamenta a decadencia portugueza,
Este novo Ganós foi procreado,
Peste d'Asia em luxuria, e gentileza:
Que ermitão de cilicios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra teza?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?

V

Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tezões accendem;
As mammas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véos os véos offendem;
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ella ardendo,
Ás pissas pelas mãos lhe vão mettendo.

VI

Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aquelles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metaes brilhantes;
As niveas plantas, quando move os passos,
Vão pizando os tezões dos circumstantes;
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.

VII

Mas para castigar-lhe a vil cubiça
O vingativo Amor, como aggravado,
Fogo infernal no coração lhe atiça
Por um sordido cafre asselvajado;
Tendo-lhe visto a torrida linguiça
Mais extensa que os canos d'um telhado,
Louca de comichões a indigna dama
Salta n'elle, convida-o para a cama.

VIII

Eis o bruto se cossa de contente;
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
D'erguer-lhe as fraldas, de provar-lhe o bolo:
Estira-a sobre o leito, e de repente
Quer do panno sacar o atroz mampolo:
Porém não necessita arrear cabos;
Lá vai o langotim com mil diabos.

IX

Levanta a tromba o rispido elephante,
A tromba, costumada a taes batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas:
Ella enganchando as pernas delirante,
«Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não ha porra melhor em todo o mundo!
Mette mais, mette mais que não tem fundo.

X

«Ah! se eu soubera (continúa o couro
Em torrentes de semen já nadando)
Se eu soubera que havia este thesouro
Ha que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavára o cú, lavára o passarinho,
Mas só para foder c'o meu negrinho.

XI

«Mette mais, mette mais… Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não vivêras em um perpetuo engano,
Pois vir-me-hia tambem quando te vinhas:
Mette mais, meu negrinho, anda, magano;
Chupa-me a lingua, meche nas mamminhas…
Morro de amor, desfaço-me em langonha…
Anda, não tenhas susto, nem vergonha.

XII

«Ha quem fuja de carne, ha quem não morra
Por tão bello, e dulcissimo trabalho?
Ha quem tenha outra idéa, ha quem discorra
Em cousa, que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converte em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho:
Porra, e mais porra no verão, e no hynverno,
Porra até nas profundas do inferno!…

XIII

«Mette mais, mette mais (ia dizendo
A marafona, ao bruto, que suava,
E convulso fazia estrondo horrendo
Pelo rustico som com que fungava:)
Mette mais, mette mais que estou morrendo!…»
«Mim não tem mais!» O negro lhe tornava;
E triste exclama a bebada fodida:
«Não ha gosto perfeito n'esta vida!»

XIV

N'este comenos o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela camara atrevido
Como se entrasse n'um logar profano:
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sae logo, dizendo: «Arre magano!
Na minha cama! Estou como uma braza!
Mas, bagatella, tudo fica em casa.»

XV

A foda começada ao meio dia
Teve limite pelas seis da tarde:
Veiu saltando a nympha de alegria,
E da sordida acção fazendo alarde:
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: «Estás coráda! O ceo te guarde;
Bem boa alpistre ao passaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?»

XVI

«Cale-se, tolo» (a puta descarada
Grita n'um tom raivoso, e lhe rezinga)
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os hombros encolhe, e não respinga:
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que elle, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama, e foge de repente.

XVII

Deserta por temor d'esfalfamento,
Deserta por temer que o couro o mate:
Ella então de suspiros enche o vento,
E faz alvorotar todo o Surrate:
Vão procural-o de cipaes um cento,
Trouxeram-lhe a cavallo o tal saguate;
Ella o vae receber, e o grão Nababo
Pasmou d'isto, e quiz ver este diabo.

XVIII

Pouco tempo aturou de novo em casa
O cão, querendo logo a pelle forra,
Pois a puta co'a crica toda em braza,
Nem queria comer, só queria porra:
Voou-lhe, qual falcão batendo a aza,
E o courão, sem achar quem a soccorra,
Em lagrimas banhada, acceza em furia,
Suspira de saudade, e de luxuria.

XIX

Courões das quatro partes do universo,
De gallico voraz envenenados!
Se d'este canto meu, d'este acre verso
Ouvirdes por ventura os duros brados:
Em bando marcial, côro perverso,
Vinde ver um cação dos mais pescados:
Vindo cingir-lhe os louros, e devotos
Beijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.

A EMPREZA NOCTURNA.

Era alta noute, e as beiras dos telhados
Pingando mansamente convidavam
A gente toda a propagar a especie:
Brandas torrentes, que do ceo cahiam
Pelas ruas abaixo susurravam:
Dormia tudo; e a ronda do Intendente
Que o grão Torquato rege, o pae das putas,
Esbirro-mór, Mecenas das tabernas,
Recolhido se havia aos patrios lares.
Era tudo silencio, e só se ouvia
De quando em quando ao longe uma matraca.
Soava o sino grande dos Capuchos,
Vão-se os frades erguendo, era uma hora.
Não podia faltar: Nise formosa,
Pela primeira vez m'estava esperando.
De repente me visto, e salto fora
Da pobre cama, aonde envolto em sonhos
Mil imagens a mente me fingia.
Visto roupa lavada, e me perfumo,
N'um capote me embuço, a espada tómo,
Que nunca me serviu, mas que em taes casos
Mette a todos respeito; e qual Quixote,
Que, havendo já perdido o charo Sancho,
Sem nada recear de assalto busca
Altos moinhos, que valente ataca;
Tal eu figuro achar a cada esquina
Um Rodamonte, e prompto me disponho
A lançal-o por terra, em pó desfeito.
Assim gastei o tempo, até que chego
Ao sitio dado, onde meu bem m'espera.
Mal a porta emboquei, dentro em mim sinto
Um fogo activo, que me abraza todo.
Eis de Nise a criada, abelha mestra,
Que á mira estava ali, a mão me aperta,
Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso,
Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos,
Por acaso ao subir lhe apalpo as coxas…
Oh! caspite! que sesso! Era alcatreira,
Nunca vi cú tão duro, era uma rocha.
Foi o tezão então em mim tão forte,
Que as mãos lhe encosto aos hombros, n'ella salto,
Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!…
Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!…
Ao dizer isto a voz lhe fica presa,
Soluça, treme toda, estende os braços,
Aperta as pernas, encarquilha o cono,
Que distava do cú pollegada e meia.
Qual moinho de cartas, que os rapazes
Em tempo de verão põem nas janellas,
Tal a moça rebolla: e eu posto em cima.
Sem nada lhe dizer, tinha vertido
Na larga dorna a larga apojadura.
Acabada a funcção, em que a moçoila
(Segundo confessou) deu tres por uma,
N'um quarto me encaixou, onde os Amores
Tinham sua morada, onde Cupido
Havia receber em seus altares
Em breve espaço meus amantes votos.
Dormia tudo em casa: eis Nise bella
Um pouco envergonhada, assim ficando
Mais vermelha que a rosa, a mim se chega,
Nos meus braços se lança: então lhe toco
No tenro, e branco seio palpitante;
Trémula a voz, que o susto lhe embargava,
Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh'alma
«Quanto pode o amor n'um peito firme!
«Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço
«Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra
«Bem sei que despedaço!… Mas não temo
«Que te esqueças de mim, que ufano zombes
«D'uma infeliz mulher amante, e fraca!…»
Em quanto assim falava, me prendia
Nise c'os braços seus, e aos meus joelhos
As pernas encostava, que eu conheço
Pelo tacto, que são rijas, e grossas.
Mal podia conter-me: o ceo chuvoso
Pelas telhas cahia; o vento rijo
Pelas frestas zunia; a casa toda
Com cheiro de alfazema; a cama fofa,
Tudo emfim era amor, tudo arreitava.
Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve,
Descubro-lhe com geito o tenro peito,
Que ancioso palpita, que resiste,
Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella!
No seio virginal, onde dois globos
Mais brancos do que jaspe estão firmados,
Ancioso beijando-os, pouco a pouco
Se fizeram tão rijos que mal pude
Comprimil-os c'os beiços; n'este tempo
Pelo fundo da saia subtilmente
Lhe introduzi a mão, com que esfregava
O pentelho em redondo, o mais hirsuto
Que atéli encontrei; e como a crica
Vertido tinha já pingas ardentes,
Certos signaes, que os férvidos prazeres
Dentro n'alma de Nise á lucta andavam,
Tal fogo em mim senti, que de improviso
Sem nada lhe dizer me fui despindo,
Té ficar nú em pello, e o membro feito,
Na cama m'encaixei, qu'a um lado estava.
Nise, cheia de susto, e casto pejo,
De receio, e luxuria combatida,
Junto a mim se assentou, sem resolver-se.
Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando
Quanto cobria seu airoso corpo.
Era feito de neve: os hombros altos;
O collo branco, o cú roliço, e grosso;
A barriga espaçosa, o cono estreito,
O pentelho mui denso, escuro, e liso;
Coxas pyramidaes, pernas roliças,
O pé pequeno… Oh ceos! Como é formosa!
Já mettidos na cama em nivea hollanda,
Erguido o membro té tocar no embigo,
Qual Amadis de Gaula entrei na briga:
Pentelho com pentelho ambos unidos,
Presa a voz na garganta, ardente fogo
Exhalavamos ambos; Nise bella
Ou fosse natural, ou fosse d'arte,
O peito levantado, anciosa, afflicta,
Tremia, soluçava, e os olhos bellos
Semi-mortos erguia: a côr do rosto
Pouco a pouco murchava; era tão forte,
Tão activo o prazer, que ella sentia,
Que, cingindo-me os rins c'os alvos braços,
Tanto a si me prendia, que por vezes
O movimento do cú me embaraçava:
Co'as alvas pernas me apertava as coxas,
Titilava-lhe o cono, e reclinada
Quasi sem tino a languida cabeça,
Chamando-me seu bem, sua alma, e vida,
Faz-me ternas meiguices, brandos mimos:
Férvidos beijos, mutuamente dados,
Anhelantes suspiros se exhalavam:
Era tudo ternura; e em breve espaço
Ao som de queixas mil, com que intentava
Mostrar-me Nise um damno irreparavel,
Me senti quasi morto em todo o corpo;
Uma viva emoção senti gostosa
Dentro em minh'alma: férvidos prazeres
O peito vivamente me agitavam:
Os olhos, e a voz amortecida,
Os braços frouxos, quasi moribundos,
Languido o corpo todo, em fim mal pude
Saber o que fazia… Eis de improviso
Tornando a mim mais forte, e mais robusto,
Tentei de novo o campo da batalha:
Qual o bravo guerreiro, que se abrasa
No calido vapor, que exhala o sangue
Que elle mesmo esparziu entre as phalanges
De inimigos crueis, que vence, e mata;
Assim eu, abrasado em vivo fogo
Que de Nise sahia, me não farto
Da guerra, que intentei; de novo a aperto,
De novo beijo os seus mimosos braços;
Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca,
Os niveos peitos, a cintura airosa;
Nise outro tanto me fazia alegre,
Estreitava-me a si por varios modos:
Ora posto eu por baixo, ella por cima,
Para dar doce allivio aos membros lassos;
Ora posto de ilharga, sem que nunca
O voraz membro do logar sahisse,
Onde uma vez entrara altivo e forte;
O membro, que em tal caso era mais duro
Que alva columna de marmoreo jaspe;
Até que em fim, depois de não podermos
Nem eu, nem Nise promover mais gostos,
O brando somno, sobre nós lançando
Os seus doces influxos brandamente,
Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhos
Vieram animar nossos sentidos,
Té que chegou a fresca madrugada,
Em que á casa voltei, d'onde sahira;
E tornando outra vez á pobre cama,
Dormi o dia inteiro a somno solto.

EPISTOLA A MARILIA.

I

Pavorosa illusão da Eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos;
D'almas vans sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora;
Freio, que a mão dos despotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arreigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestavel crença,
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no ceo se fingem:
Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma,
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro,
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem d'um Deus quando quer faz um tyranno:
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co'a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inutil venia
Espere ás plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que ás leis, que as propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbitra,
E, nos ares lançando a futil benção,
Vae do grantribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de Amor, que dá, não vende.

II

Oh Deus, não oppressor, não vingativo,
Não vibrando co'a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto, que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rigida sentença,
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo.
Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro!
Monstros de vís paixões, damnados peitos
Regidos pelo sofrego interesse
(Alto, impassivo numen!) te attribuem
A cholera, a vingança, os vicios todos,
Negros enxames, que lhe fervem n'alma!
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror das barbaras cruezas,
Cobrir com véo compacto e venerando
A atroz satisfação de antigos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia,
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franquêa, e nutre:
Eil-o, em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bocca, o fel, a espuma,
Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle,
Eil-o citando os horridos exemplos
Em que aterrada observe a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo:
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Envolto em nuvens, em trovões, em raios
De Israel o tyranno omnipotente;
Lá brama do Sinay, lá treme a terra!
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto,
Ouve o terrivel Deus, que assim traveja:
«Vae, ministro fiel, dos meus furores!
Corre, vôa a vingar-me: seja a raiva
De esfaimados leões menor que a tua:
Meu poder, minhas forças te confio,
Minha tocha invisivel te precede:
Dos impios, dos ingratos, que me offendem,
Na rebelde cerviz o ferro ensopa:
Extermina, destroe, reduz a cinzas
As sacrilegas mãos, que os meus incensos
Dão a frageis metaes, a deuses surdos:
Sepulta as minhas victimas no inferno,
E treme, se a vingança me retardas!…»
Não lh'a retarda o rabido propheta;
Já corre, já vozêa, já diffunde
Pelos brutos, attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo:
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam,
Que sanha! que furor! que atrocidade!
Foge dos corações a natureza;
Os consortes, os paes, as mães, os filhos
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio:
Os campos de cadaveres se alastram,
Susurra pela terra o sangue em rios,
Troam no polo altissimos clamores.
Ah! Barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serena o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De opprimir seus eguaes com ferreo jugo;
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão valido,
É Deus do teu furor, Deus do teu genio,
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles, que não crêm que Deus existe.

III

N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que em tenebrosos seculos envolta
Desde aquelles crueis, infandos tempos
Dolosa tradição passou aos nossos.
Do coração, da idéa, ah! desarreiga
De astutos mestres a fallaz doctrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos:
Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello.
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo,
Que só não leva a bem o abuso d'ellas,
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida:
Amor é lei do Eterno, é lei suave;
As mais são invenções, são quasi todas
Contrarias á razão, e á natureza:
Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos.
Natureza, e razão jámais differem:
Natureza, e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quanto nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxêa o vergão de vís algemas:
Natureza, e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania,
Que pondo os homens ao nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outros
Traçâmos fero damno, injustos males
Em nossos corações, em nossas mentes,
És, oh remorso, o precursor do crime,
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe,
Pois não pode evitar-se o pensamento,
E é innocente a mão, que se arrepende.
Não vem só d'um principio acções oppostas:
Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo,
Ou do cego furor, moleslia d'alma.

IV

Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto,
Que te anceam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse.
Só de infestos mortaes na voz, na astucia
A bem da tyrannia está o inferno.
Esse, que pintam barathro de angustias,
Seria o galardão, seria o premio
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente:
Mil vezes te dirá: «Se a rigorosa
Carrancuda oppressão de um pae severo,
Te não deixa chegar ao charo amante
Pelo perpetuo nó, que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na idéa
Para tambem no amor dar leis ao mundo;
Se obter não podes a união solemne,
Que hallucina os mortaes, porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que com lagrimas, e ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder, os teus direitos
Da justiça despotica extorquidos:
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os affoguêa:
De amor ha precisão, ha liberdade;
Eia pois, do temor saccode o jugo,
Acanhada donzella; e do teu pejo
Déstra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noute, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano,
Ao risonho prazer franquêa os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymenêo as venerandas
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro o Amor, e a terra templo
Pois que o templo do Eterno é toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desafoga.
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que, só de prazer merece o nome.
Verás como, envolvendo-se as vontades,
Gostos eguaes se dão, e se recebem:
Do jubilo hade a força amortecer-te,
Do jubilo hade a força aviventar-te.
Sentirás suspirar, morrer o amante,
Com os seus confundir os teus suspiros,
Has de morrer, e reviver com elle.
De tão alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora.»
Eis o que has de escutar, oh doce amada,
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado
Ás preces, que te envia, eu uno as minhas.
Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar é um dever, além de um gosto,
Uma necessidade, não um crime,
Qual a impostura horrisona apregôa.
Céos não existem, não existe inferno,
O premio da virtude é a virtude,
É castigo do vicio o proprio vicio.

FRAGMENTO DE ALCEU, POETA GREGO:

TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA DE Mr. PARNY.

I

Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,
Que os beneficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d'incensos?
Credula, branda amiga é falso, é falso:
Longe a cega illusão. Se ambos sumidos
Em solitario bosque, e misturando
Doces requebros c'os murmurios doces
Dos transparentes, garrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa
Nosso innocente ardor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te comigo
Sobre viçoso thalamo de flores,
Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de ineffaveis gostos
Morressemos, meu bem, d'uma só morte;
E se Amor outra vez nos désse a vida
Para expirar de novo: em que peccára,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolphado,
Submerso em perennal tranquillidade
Com as acções humanas não se emb'raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortaes, n'um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.

II

Eia! Deixemos á vaidade insana
Correndo-se da rapida existencia
Sem susto para si crear segunda:
Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,
Pela immortalidade os olhos ledos;
E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.
Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praia
Onde a morte nos lança, e nos arroja,
Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,
Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.
Em quanto dura a vida ah! sejam, sejam
Nossos os prazeres, os Elysios nossos.
Os outros não são mais que um sonho alegre,
Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,
Para curvar ao jugo os brutos povos:
E o que a superstição nomêa averno,
E á multidão fanatica horrorisa;
As furias, os dragões, e as chammas fazem
Mais medo aos vivos, do que mal aos mortos.

ARTE DE AMAR,

OU

PRECEITOS, E REGRAS AMATORIAS PARA AGRADAR ÁS DAMAS.

IMITAÇÃO DE OVIDIO.

I

Se, lascivos do mundo, amais sem arte,
Lede meus versos, amareis com ella.
Tu, louro Apollo, me tempera a lyra,
Tu, branda Venus, a cantar me ensina.
Quanto nos reinos de Plutão deseja
Tantalo ardente mitigar a sêde;
Quanto suspira Promethêo, que Jove
Os duros ferros, com que o prende, rompa;
Tanto deseja a feminina turba
Ao corpo varonil unir seu corpo;
Tanto suspira por que mão lasciva
Meiga lhe toque nas columnas lisas,
E que mimoso, petulante dedo
Lhe amolgue os tezos seus virgineos peitos.
Em Junho ardente pelo seu consorte
Clama, suspira em verde ramo a rôla;
Em gelado Janeiro clama triste
A domestica tigre por marido:
Brama nos campos em sereno Maio
Mansa novilha por amado touro.
Sabia Natura o debil sexo excita,
Torpes desejos com ardor provoca:
Mas sempre firme, e simulada nega
Carnal impulso geração de Pyrrha.
Busca Diana Endymião nos bosques,
Mas finge ousada perseguir as féras;
Ardente Venus só prazer respira,
Mas seus favores solicíta Marte;
Serrana humilde reclinar deseja
Nos doces braços de um Vaqueiro o collo;
Mas d'elle foge, na montanha, esquiva,
Com elle o baile festival recusa.

II

Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiro
Á vaga turba legislou dos homens,
Severo alçando temeroso ferro
Duro reprimes da natura os gritos;
Á face mulheril, immovel d'antes,
Pudibundo rubor e pejo déstes;
Mas ah! não tema varonil caterva
Femineo pejo, sendo eu o seu mestre.
Corta o duro machado erguido tronco,
Mas vejo sempre pullular vergonteas;
Diques forçosos contra o mar se elevam,
Mas além d'elles delphins mansos nadam.
Pode mais do que as leis a Natureza,
Pratica o mundo só o que ella dicta;
Faz-se escondida em quanto a não descobrem;
Eu subtil mestre a descobril-a ensino.
Ah! não me chamem críticos austeros
Dos bons costumes corruptor profano!
Ah! não me mande Cesar irritado
No frio Euxino a viver c'os Getas.
Outra cousa não faz duro colono
Com liso arado, quando rompe a terra:
Dura codêa o calor nativo impede,
O ferro a rasga, e o calor transpira.

III

Vós, mancebos, correi, correi ligeiros
Do Tibre ás margens ferteis, e mimosas:
Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos;
Direi primeiro como Amor se enlêa,
Depois como se faz propicia Venus.
Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses,
Sabio me inspira, que não basta Apollo.
É verde louro fugitivo Daphne,
Amor ingrato do queixoso Phebo:
Tu, selvatico filho de Saturno,
Só tu não temes desdenhosas iras:
Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas,
Ou touro manso linda Europa roubas.
A face mulheril formosa, e pura
Cobrem de pejo avermelhadas rosas;
Ou dedo juvenil destro as desfolhe,
Ou calido vapor soprando as murche:
Então lasciva, sem rebuço exposta
Facil se entrega, sem temor se arroja:
Então tu, louro Apollo, serás Daphne,
A nympha fugitiva será Phebo.
Apoz o bruto filho de Neptuno
Correrá Galathéa os verdes mares;
Assim foge de Cyrce o grego Ulysses,
Assim foge de Dido o pio Enéas.
Porém, primeiro, subtilmente a inflamma;
Se acaso ardente, devorante fogo
Torrar os bofes, consumir entranhas,
Natura acode com forçoso impulso,
E mais depressa se afugenta o pejo:
Mais depressa o calor do sol derrete
Pallida massa de esfregada cêra;
Mais cedo rompe ariete forçoso
Torres antigas, ruinosos muros.

IV

Se branco rosto, que formoso esmaltam
Preciosos rubís, azues saphiras,
Face morena, que engraçados ornam
Dous pretos olhos, com que as Graças brincam;
Se airoso gesto, movimento lindo,
Se honesto modo, se sisudo termo
Feriu teus olhos no theatro, ou templo,
Eia, mancebo, tens amores, corre!…
Em pé ligeiro te sublime, e ergue;
Da vasta chusma simulado escapa,
Ou destro finjas cerebro revolto,
Ou falso mostres abafado o peito;
Logo modesto dirigindo os olhos
Á branda Tyrse, para os seus repara;
Vê se innocentes ao acaso vagam,
Ou se inquietos com destino giram;
Se por ventura teu rival encontras,
Animo forte, desmaiar não deves;
Mais honrosa será tua victoria,
Tens para o carro triumphal captivo.

V

Era consorte de Vulcano Venus,
Mas dos favores seus é digno Marte;
Com vergonha do sordido ferreiro
Preso nas rêdes fica o deus da guerra:
Quaes no prado mellifluas abelhas
Correm voando d'uma flor em outra,
Nem sobre o casto rosmaninho pousam,
Nem sobre o thymo matinal descançam:
Taes, oh mancebos, mulherís desejos
Correndo vôam de um amor em outro.
Nem destro Ulysses seu correr impede,
Nem rico Midas suas azas prende;
Oh tu cerulea, cristallina Thetis,
Quando revolta não serás tão vaga?
Oh tu suberbo, furioso Noto,
Quando liberto não serás tão doudo?
São mais constantes de um carvalho altivo
As livres folhas, quando Bóreas sopra,
Tremulam menos nos extensos mares
Flamulas soltas, que menêa o vento.
Se tu, mancebo, por acaso agradas,
Vive seguro, em teu rival não cuides;
É velho amante, tu amante novo:
Pode mais do que amor a novidade;
De novo ardia por Helena Paris,
Por isso foi de Meneláo contrario.

VI

Mas é preciso que subtil e hardido
Primeiro excites a attenção de Tyrse.
Com gesto alegre teu amor exprime,
Falem teus olhos, todo o corpo fale;
Mudo lhe dize que te assombra, e pasmam
Do seu semblante a formosura, e a graça.
Ora de espanto se amorteça a face,
Ora se accenda com venereo fogo:
O mesmo effeito teus contrarios fazem,
Todos o orgulho mulheril incensam:
O forte sexo para si reserva
De Phebo os louros, de Mavorte as palmas.
Em carros triumphaes nunca viu Roma
Matrona illustre de Cesarea casa;
Sós d'entre a chusma mulheril as Musas
Á sombra dormem de Apollineos louros;
Ao sexo lindo só agradam myrthos,
Verdes arbustos, que cultiva Venus.
Só d'entre a chusma varonil Cupido
Da Cypria deusa pode entrar no templo:
A porta guardam Furias irritadas,
Que em vez de lanças arrepellam serpes,
Com dente venenoso rasgam, mordem
Alheio sexo, que arrostal-as ousa.
Posto que fosse lindo o amor de Venus,
Morreu da sua mordedura Adonis;
Provando a furia da raivosa Alecto,
Foi convertido em tenra flor Narciso.

VII

Mas onde corre meu batel ligeiro!
Ferrando a vela para traz voltemos.
Mancebos, que me ouvis, sabei sómente
Que n'este laço se surprehendem todas.
Se acaso entrasse n'esta rêde de ouro
Lucrecia mesma ficaria presa;
Não seria Penelope tão casta,
Se os seus amantes lhe chamassem bella.
Esta gloria sómente querem todas,
Com fervoroso ardor todas a buscam:
Nem sobre as margens do Euphrates Cesar
Mais pela gloria marcial suspira.
Apraz a Venus variar de forma,
Tambem Cupido de ser vario gosta;
Um gesto sempre doce se abhorrece,
Ás vezes vale muito um desagrado.

VIII

De teu rival, mancebo, nota o modo,
E tu sempre diverso modo segue:
Não basta ser sómente amante novo,
É tambem necessaria nova forma.
Se elle inquieto namora, tu sisudo,
Se indecente se mostra, tu modesto;
Se triste se apresenta, tu alegre;
Se acanhado se mostra, tu mais livre;
Mas toma sempre virtuoso gesto,
Só lhe pareça teu amor franqueza.
Não ha no mundo tão lascivo monstro
Que a virtude não preze mais que o vicio;
E julga sempre a feminina turba
D'elles alheio quem se mostra casto:
A flamma do Ciume tambem queima,
E torra brandas mulherís entranhas;
Nem vibora raivosa, que pisada
Do vago caminhante se exaspera,
Nem besta furiosa, em cujas fauces
O nú selvagem crava a setta aguda,
Mais iradas se accendem, do que a turba,
Quando ciosa se exaspera, e arde.
O ciume foi ferro, a cujo golpe
Banhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras,
Foi elle a chamma, que abrasou Semele:
Em feroz urso transformou Calixto;
(Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede,
Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize!
Ah! formosa Corinna! Não te engano,
Só me abraso por ti, só por ti morro!…)
Porém sulquemos novos mares, fuja
Nosso veloz batel longe da praia.

IX

Mancebo, deixa o teu rival; só cuida
Em combater da bella Tyrse o peito.
Do theatro se corre o largo panno,
Aberta a scena principia o drama.
Temerario, não deves ver tranquillo
Da peça theatral o sabio jogo:
É Cupido rapaz, não tem socego,
Não perde a occasião o que amor busca;
Para os olhos de Tyrse te encaminha,
N'elles a scena figurada nota;
Se por acaso lagrimas derrama
Tu de pranto tambem as faces banha;
Finge ao menos secar com alvo lenço
O terno pranto, que verter não podes;
Se irritada parece, toma fogo,
Se com assombro pasma, tu te assombra.

X

Mas que novo segredo Amor me inspira!
Que sabias regras, que preceitos novos!
Filho de Venus, e de Marte filho,
De teus altos mysterios serei vate!
Forma novos oraculos em Cypro;
Por elles tenha esquecimento Delphos.
Namorado mancebo, Amor te fala,
Ouve com filial respeito as vozes.
Posto que tu na scena Doris ouças,
Altos prodigios, maravilhas novas,
A voz soltando bella, e sonorosa
Com que suspenda sybillantes ventos,
Não pasmes, nunca chores, ser não queiras
Réo desditoso de tão negro crime;
Cheia Tyrse de inveja, não perdoa,
Mais depressa seria o mar estavel.
A nação feminil sustenta sempre
Entre si crua sanguinosa guerra:
Inda no berço brandamente dorme,
Inda c'o leite maternal se nutre,
Já da cova sombria o negro monstro
Que come verdes enroscadas serpes,
Salta com Venenosa lingua, e lambe
Seu terno peito, seu formoso rosto;
Na bocca lhe vomita cru veneno,
Que para o brando coração lhe corre,
E nas vêas subtis introduzido,
C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa;
Não só familias com familias rompem
A paz benigna, que na terra expira;
Entre as mesmas irmãs se accende a guerra,
Por isso é hoje negro seixo Aglaura.
Até nos céos o vago monstro gira,
Minerva, e Juno fez rivaes de Venus;
Não caíram troyanos altos muros,
Só porque Paris foi roubar Helena!
Mil adulteros tinham sem castigo
Furtado esposas, maculado leitos:
No pomo da Discordia veiu envolta
A faisca fatal, que abrasou Troya.

XI

Com tudo, posto que raivosas todas
Entre si mutuamente se enfureçam,
Mancebo, não presumas que sem pena
Vejam de amor qualquer irmã queixosa.
Não houve nympha nos Thessalios campos
Que não movessem tristes queixas d'Eccho;
Só Lyriope vê com dôr Narciso,
Em branca flor Narciso as nymphas gostam:
Quando o monstro voraz, que sae dos mares
Só contra o filho de Theseo famoso,
Quando os frisões medrosos se perturbam,
Ligeiros se embaraçam, quebram redeas,
Hyppolito gentil por terra lançam,
Raivosos seu formoso corpo pizam;
A crua turba mulheril de Athenas
Festivos gritos para o céo levanta,
As tranças orna de jasmins, e rosas,
Vae dar a Venus no seu templo as graças.

XII

Oh vós, monstros crueis, geração dura!
Malignas Furias com formoso aspecto!
Sacerdote de Amor, agora o digo,
Hoje se saiba como sois geradas.
Supremo Jove, que tirou do cahos
A bruta massa, de que o mundo é feito,
Quando os homens formou, disse-lhes logo:
«De nova especie produzi sementes;
«Exista um novo sexo, em cujo seio
«O nativo calor as desenvolva:
«Formosa que a prazeres vos excite,
«Maligno, que a um cego amor vos leve;
«Os membros todos de seu corpo forme
«Formosa Venus em Cythera, ou Cypro,
«Ás Furias fique reservado o peito»
Mancebos!… Eis aqui por quem Cupido
Em subtis rêdes vos enleia todos:
Mas não vos tinja rubro pejo as faces;
Até por ellas foi novilho Jove.
Se é tecido seu peito nos infernos
É formada no céo sua cintura:
Hyppolito, Narciso lições sejam,
Com elles aprendei a não ser duros.
Posto que incestuosa chamma queime,
Devore o falso coração de Phedra,
Mostrae por ella que sentís ternura:
Acompanhe seu pranto o pranto vosso.
Tão felices agouros vendo Tyrse,
De vosso peito cego amor espera.

XIII

Longo tempo Tritão ardeu nos mares
Por Thysbe, de Nereo cerulea filha;
Dos seus amores rindo a esquiva nympha
Melhor ouvia o murmurar das ondas:
Bem como de voraz golfinho foge
Turba medrosa de miudos peixes,
Do mancebo Tritão cruel fugia
Assim nos reinos de Neptuno Thysbe.
Eis que um dia Protheo, pastor que guarda
Das aguas o maritimo rebanho,
Cuja molhada fronte cingem molles
E verdenegros juncos, que o mar cria;
Em tremulo penhasco, e ondeando enfeitam
A leve coma palludosos ramos,
Atraz do gado nadador cantava:
«Ah! misero Tritão, se queres Thysbe,
«Em leve pó mudada Troya vinga.»
Os eternos oraculos não mentem,
Deixou de ser esquiva a loura Thysbe.
Quando Circe nas praias se queixava
Do fugitivo, do perjuro Ulysses;
Tritão da sua dôr enternecido
Vingança lhe promette, chama os ventos,
Do sagrado Oceano agita as ondas,
No fundo seio as gregas náus soçobra.
Mais preciso não foi, Thysbe se rende,
Do louco amante para os braços corre,
Mil beijos lhe recebe, e mil lhe imprime…
Deveis, mancebos, presumir o resto;
Em breve tempo todo o mar povoam
Filhinhos de Tritão, de Nerêo netos.

XIV

Eis em resumo as regras necessarias,
Afim de conseguir femineo affecto:
D'ellas aprendereis, destros mancebos,
A serdes cautos, prevenindo os laços
Armados por Amor á inexp'riencia;
Pendurando assim trophéos innumeros
Ao carro triumphal da vossa gloria.

CARTAS DE OLINDA E ALZIRA.

EPISTOLA I.

OLINDA A ALZIRA.

Que extranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido!
Minhas vistas ao céo languidas se erguem,
E a mim propria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assuberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.
Das mesmas sup'rioras a presença,
Que d'antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! minha chara! os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.

EPISTOLA II.

ALZIRA A OLINDA.

Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a Natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Precede ao fructo a flor já matizada,
Que fôra antes de flor botão mimoso.
Assim a sabia mão da Natureza
A passos insensiveis caminhando
Maravilhas em nós produz, que assombram.
Somos na infancia apenas um bosquejo
Do que nos cumpre ser annos mais tarde.
N'aquella edade a Natureza attenta
Em conservar-nos só, não desenvolve
Sentimentos, que então superfluos foram:
Inactivas nos tem, e nos conserva,
Bem como as plantas no gelado hynverno.
Porém depois que o sol da primavera
Fecundos raios sobre nós dardeja,
Então de novas fórmas animado
Pula nas vêas affogueado sangue,
E sem perder da infancia os attractivos
Da puberdade o lustre desfructamos.
Então sentimos commoções insolitas,
Que origem são dos males, que te opprimem;
Do amor, que te domina, melancolico;
Da forte agitação, que em ti presentes.
Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o,
Feliz serás, se o trilho me seguires.

EPISTOLA III.

OLINDA A ALZIRA.